FÉRIAS (DES) COMPROMETIDAS

 

Preocupa-me ouvir uma criança de 12 anos hesitar em responder à “O que gostas de fazer nos teus tempos livres?” Demasiadas vezes, impulsionada, que fazem os TPC, para “ficarem despachados e não terem de se preocupar mais”. Uma criança deveria ter o direito a saber o que lhe dá prazer e não somente o que causa preocupação.

Chegadas as férias, estas crianças muitas vezes sentem-se perdidas, sem saber o que fazer com o tempo. A família e os profissionais da educação e saúde certamente se questionam sobre o que será mais acertado, manter como agendas comprometidas, agora com compromissos radicais ou culturais, ou dar tempo para esse fazer nada, esse descobrir um tempo que corre devagar e que pode ser aproveitado, gozado, desfrutado, saboreado?

A resposta correta não é garantida… Dependerá de cada família, de cada criança. Por um lado, o tempo de férias deveria ser um tempo para parar, recuperar o tempo que não houve para desfrutar da companhia dos outros, da natureza, de si próprio…

Quando a família tem de recorrer às atividades organizadas, o ideal será fazer uma seleção criteriosa, garantindo que vão ao encontro dos interesses dos filhos, que existe um equilíbrio entre atividades lúdicas, desportivas e artísticas e, entre algumas opções pré-selecionadas pelos pais, dar a oportunidade à criança de escolher, para que possa participar de suas férias.

Quanto ao tempo de parar, pode formular ser difícil para uma criança saber o que fazer, mas aprender a estar, esperar, observar, explorar pode tornar-se um tempo precioso nas férias. Fazer caminhadas, observar estrelas à noite, sentir cheiros do dia e da noite, conversas que se estendem pela noite fora…. Reencontrar um equilíbrio no tempo, em que não temos de nos apressar ou sentir angústia por não termos cumprido compromissos…

Havendo necessidade de complementar com a prática de competências escolares, para não se desaprender, o ideal será incorporar curtos períodos na rotina diária nos quais a criança faz atividades organizadas de leitura, escrita, matemática ou revisão de conteúdos, em horários que a família define como períodos em que uma criança está desesperta. De forma menos dirigida, podem ser incentivadas atividades no dia a dia, nas caminhadas, nos jogos e conversas à mesa.

Deixamos algumas sugestões para que as férias possam ser um momento de regozijo em pleno descomprometimento com o tempo:

  • Diminuir a complexidade de tarefas domésticas para executar, simplificando ao máximo o quotidiano. Tudo deve ser simplificado e partilhadas como responsabilidades, para todos realmente estar de férias, sem que haja alguém que, em vez de gozar o tempo, a liberdade e companhia, passe o tempo a limpar, lavar, cozinhar e arrumar;
  • Elaborem um diário de férias, onde se pode colar alguns tesouros recolhidos, fotografias, ou fazer desenhos e escrever umas palavras, para recordar mais tarde;
  • Criem diversos momentos de leitura, podendo variar o cenário, o tipo de material ou a forma de ler: ler numa rede, na banheira, de cabeça para baixo, sentado numa árvore, a ver o pôr do sol, para o animal de estimação, ao ritmo de uma música, para o vento, à luz das velas ou da fogueira;
  • Mesmo na cidade podem ser elevados aventuras e passeios engraçados, tentem descobrir estórias, a história, recantos, pormenores e pessoas, façam um diário e registo fotográfico;
  • Pesquisem sobre plantas e animais autóctones, procurem-nas e fotografem ou desenhem-nas. Caso descubram espécies desconhecidas, podem enviar a fotografia para páginas da Internet ou associações relacionadas com a natureza que ajudarão na identificação da espécie;
  • Criem ninhos para pássaros, abrigos para insetos, alimentadores para estas espécies e observem a sua ocupação, eventualmente ao longo dos anos;
  • Acampem por uma noite, na rua, ou se não for possível, em casa, inventem uma tenda, abram as janelas. Qualquer dispositivo eletrônico deve ser proibido nessa noite, de forma a apenas existir a luz e o som que comer lá de fora.

Esperamos que em setembro, depois de umas férias descomprometidas e bem passadas em família, ouvir mais crianças falar despreocupadamente das suas aventuras e descobrir o que realmente gostam de fazer nos seus tempos livres.

Boas descobertas, boas férias!

 

Leonor Ribeiro - Técnica Superior de Educação Especial e Reabilitação do CADIn 

CADIn - Neurodesenvolvimento e Inclusão

Texto publicado pelo Público a 04/07/2021